A abertura da NRF 2026 deixou um recado direto: o “próximo” não é uma tendência distante — é o agora em execução. Com o tema “The Next Now”, o evento começa amarrando três pilares como uma mesma agenda estratégica: pessoas, inteligência artificial e experiência do cliente. A mensagem é menos sobre “adotar tecnologia” e mais sobre reorganizar o varejo para operar com consistência, velocidade e confiança em um mercado cada vez mais fragmentado, onde a experiência deixou de ser diferencial e virou critério mínimo.
IA como virada de plataforma: de ferramenta para sistema operacional
O primeiro dia reforçou um ponto-chave: estamos vivendo uma virada de plataforma em IA. O varejo deixa de tratar IA como um conjunto de projetos (pilotos, automações pontuais, chatbots isolados) e começa a enxergá-la como uma camada central de descoberta, decisão e transação. Isso muda o que significa “maturidade digital”: não basta ter aplicações de IA; é preciso ter arquitetura de dados, governança e rotinas capazes de transformar inteligência em operação contínua — com qualidade, rastreabilidade e escala.
Essa virada também redefine o papel do líder e do time. Se IA vira base, o ativo mais crítico passa a ser a capacidade da organização de aprender e ajustar em ciclos curtos. A competência deixa de ser apenas “ter estratégia” e passa a ser revisar estratégia com frequência, sustentada por dados confiáveis e processos claros. É um varejo mais parecido com um organismo vivo do que com uma máquina rígida.
Agentic commerce e a nova disputa por relevância e confiança
Quando o evento aponta para a ascensão do agentic commerce, o assunto não é só tecnologia — é poder de mediação. Se agentes (assistentes, copilotos, sistemas autônomos) começam a influenciar descoberta e decisão de compra, a disputa sai do ranking tradicional e entra num território de relevância e confiança: quem for “compreensível” para os agentes, quem tiver dados consistentes e quem reduzir fricções tende a aparecer mais, converter mais e reter mais.
Nesse cenário, a qualidade do básico vira estratégia: catálogo bem estruturado, atributos completos, preços consistentes, identidade e confiança. É o tipo de fundamento que parece operacional, mas na prática determina presença, conversão e margem quando a jornada é mediada por sistemas que priorizam consistência e sinal de confiança.
Personalização em escala: uma nova fase, com decisão humana no fim
Outro eixo forte do dia foi a personalização em escala. A NRF 2026 trata personalização menos como “campanha inteligente” e mais como capacidade operacional: produzir consistência, adaptar mensagens, acelerar produção e manter coerência em múltiplos canais e contextos. O ponto relevante é o equilíbrio: IA aumenta produtividade e padronização, mas o varejo que quer ser lembrado (e não só usado) mantém a decisão final sob uma lógica humana — porque consumo é contexto, emoção, pertencimento, e não apenas eficiência.
Essa visão é importante porque corrige um erro comum do hype: tentar substituir o humano onde ele é parte do valor. A NRF não ignora automação, mas reforça que o diferencial competitivo não é “ter IA”, e sim orquestrar IA com identidade, cultura e experiência.
Ecossistemas: o varejo como plataforma de valor, não só canal de venda
O dia também consolidou um movimento de modelos de negócio: o varejo evolui para ecossistemas integrados, conectando produtos, conteúdo, comunidade, serviços e dados. É uma resposta natural a um consumidor que transita entre canais, muda de referência rápido e toma decisões em ambientes mais amplos do que “a loja” ou “o site”.
A narrativa da Fanatics aparece como símbolo disso: não é apenas vender produto; é construir um sistema que une distribuição, experiência, relacionamento e escala global em torno de um universo (no caso, esporte). Essa lógica reforça uma tese maior do evento: o varejo cresce quando deixa de pensar em transações isoladas e passa a operar como infraestrutura de relacionamento e experiência.
Liderança, D2C e resale: os limites do discurso e a volta ao essencial
Nem tudo no primeiro dia foi “tecnologia”. Os debates sobre liderança, D2C e os limites do resale recolocam o varejo em um dilema clássico: controle de experiência e captura de valor versus complexidade operacional e coerência de marca. D2C pode fortalecer relacionamento e margem, mas cobra maturidade e execução. Resale cresce, mas encontra limites quando tenta virar escala sem resolver fricções de confiança, padronização e viabilidade.
O ponto comum dessas discussões é simples: modelos se sustentam quando a operação consegue entregar o que a promessa vende. O varejo pode inovar em canais e formatos, mas não escapa do fundamento: consistência na entrega, clareza de proposta e disciplina de execução.
O fio condutor do Dia 01: confiança nasce da execução
No fim, o primeiro dia da NRF 2026 amarra uma ideia: o varejo está virando AI-first, mas a vantagem competitiva continua sendo construída no encontro entre dados confiáveis e execução consistente. A IA acelera decisões e amplia capacidade de adaptação, mas também aumenta a penalidade para quem opera com dados quebrados, processos frágeis e execução despadronizada. E isso vale especialmente quando o mundo caminha para jornadas mediadas por agentes, onde consistência e confiança são pré-requisitos para aparecer, competir e converter.
Quando a NRF fala em “base operacional”, ela está falando — no fundo — de reduzir a distância entre estratégia e loja. É exatamente nesse ponto que temas como Planograma, Trade Marketing e Controle de Validade deixam de ser “assuntos operacionais” e passam a ser infraestrutura de performance. Planograma sustenta consistência de exposição e execução do sortimento; Trade Marketing sustenta visibilidade e governança da execução no PDV; e controle de validade sustenta confiança e eficiência ao longo do ciclo de vida do produto. Em um varejo guiado por IA, esse “chão de loja bem feito” não é detalhe: é o que alimenta os dados com realidade e transforma intenção em resultado.




